quinta-feira, 29 de maio de 2008

JURI SIMULADO

NO TRIBUNAL: AS IDÉIAS, O CONHECIMENTO, A DEMOCRACIA
TESTEMUNHO-SÓCRATES
As teses e fundamentações de ACUSAÇÃO E DEFESA, aqui exibidas, os votos de absolvição e acusação, bem como a sentença para o que trazemos à este Tribunal, percorrerá o passado histórico e a contemporaneidade, pontuando com destaque, o que atravessa o tempo e o espaço, para permanecer atual, no Direito.
SITUANDO - TEMPO, ESPAÇO, PERSONALIDADES.
Ano 399 a.C. Atenas/Ano 2008 d. C. Brasil.
Em Atenas, 500 Juízes, escolhidos por sorteio entre os homens livres de Atenas.
Neste tempo, no Brasil, 01 Juiz.
ACUSADORES:
Em Atenas, Meleto, Ânito e Lícon.
No Brasil, Mariana, Carolina e Inez.
DEFENSORES:
Em Atenas, sócrates defende ele mesmo.
No Brasil, Aiala, Katia e Maria da Guia.
INDAGAÇÕES...
O Oráculo de Delfos aponta Sócrates como "o mais sabio dos homens".
Sócrates achava difícil acreditar nisso, por saber-se não sábio. Dizia: "só sei que nada sei".
Sócrates decidiu questionar todos os sábios e não sábios de Atenas, para descobrir se havia alguma verdade, nas palavras do Oráculo.
"Concluiu que o Oráculo de Delfos estava correto: ele era o mais sábio dos homens - porque sabia que nada sabia".
(marianabbcerqueira)
ACUSAÇÃO: TESES E FUNDAMENTAÇÃO
ACUSADORA: MARIANA
TEMOS AQUI UM PROCESSO CRIMINAL, DE UM ILÍCITO PENAL, OCORRIDO HÁ APROXIMADAMENTE 2407 ANOS ATRÁS.
Um crime de AÇÃO PÚBLICA, por se tratar ..."De incriminar um ato que atinge o interesse comum, todo e qualquer cidadão pode considerar-se lesado e intentar a ação pública (GRAPHÉ).

Ato de Acusação jurado por MELETO:
-Socrates- diz a Acusação- comete crime corrompendo os jovens e não considerando como deuses os deuses que a cidade considera, porém outras divindades novas- Esta é a acusação.

A sociedade grega, estava dividida em três grupos: CIDADÃOS LIVRES, ESCRAVOS E MULHERES.
SÓCRATES integrava o grupo dos CIDADÃOS LIVRES.
“Nessa sociedade os conflitos não eram decididos apenas através de um conjunto de LEIS ESCRITAS. O pouco que sabemos é que a DEFESA DE UM DIREITO era QUESTÃO PRIVADA. Quem se sentisse lesado, deveria tomar as medidas necessárias para resolver a questão”.
Daí a DEFESA de SÓCRATES, ter sido responsabilidade dele próprio.
Pode-se perceber a força da LEI, nessa sociedade, pelo que nos diz Platão em Críton:
...”Fomos nós que te demos à vida, que te alimentamos, que vigiamos a tua educação, que te demos, assim como aos outros cidadãos, todos os bens possíveis. Ora, nós dizemos que qualquer cidadão que o deseje, depois de ter sido admitido após o exame do corpo cívico, que tenha tomado conhecimento dos assuntos da cidade e de nós, AS LEIS, não impedimos, se não lhe agradarmos, de partir de Atenas e de ir para onde quiser, levando consigo o que lhe pertence.
Nenhum de nós, AS LEIS, impede quem quer que o deseje de partir para uma colônia, se não estiver satisfeito conosco, nem com a cidade; de se ir estabelecer como METECO, no estrangeiro; de partir para onde quiser levando seus bens.
Mas se algum de vós aqui ficar, sob a nossa forma de fazer a JUSTIÇA, e de administrar a cidade, então nós dizemos que esse se obriga a obedecer-nos e a fazer o que lhe ordenamos”.
Esta é a primeira qualificadora que consideramos para especificar a natureza do crime praticado pelo CIDADÃO LIVRE, SÓCRATES DE ATENAS, O FILÓSOFO.
Isto nos remete a formularmos nossa primeira TESE PARA ACUSAÇÃO:

A AÇÃO DE SÓCRATES, NO EXERCÍCIO DA SUA INVESTIGAÇÃO, DO CONHECE-TE A TI MESMO, EMBORA EXERCENDO SUA LIBERDADE DE EXPRESSÃO, COMO PERMITIA A CONSTITUIÇÃO DE ATENAS, PROVOCOU DESORDEM SOCIAL E FRAGILIZOU SUAS LIDERANÇAS POLÍTICAS, SUAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS, POETAS e ARTÍFICES DA CIDADE, O QUE CARACTERIZA CRIME, POR PROMOVER SUB-VERSÃO DA ORDEM POLÍTICA E SOCIAL; ABUSO NO EXERCÍCIO DA LIBERDADE; OFENSA À ORDEM PÚBLICA E AOS BONS COSTUMES, CAUSANDO TAMBÉM, PREJUÍZOS MORAIS.

Sócrates na sua própria defesa, diz: ...”esses acusadores são muitos e me acusam há bastante tempo... não se pode saber nem dizer os seus nomes, exceto, talvez, algum comediógrafo”.
Isto nos faz reconhecer que a cidade toda não estava satisfeita com a ação de Sócrates, e há muito tempo. Ele reconhece que ninguém o defendia. Esses que ele reconhece não defendê-lo, são cidadãos livres, pois só participam da polis, esse grupo social. Sócrates diz neste sentido, que combate SOMBRAS, já que esta multidão não se encontra na assembléia, onde estavam apenas os 501 juízes. Destes, a maioria o condenou, ( 280 a 220 em favor da condenação).

Os acusadores de Sócrates, representam a cidade: MELETO, os políticos e os poetas;, ÂNITO, os artífices e LINCON, os oradores.
Ânito, o acusa ...”há um tal de Sócrates, homem douto, especulador das coisas celestes e investigador das subterrâneas e que torna mais forte a razão mais fraca”.
Sócrates, teme esses acusadores, por influenciarem, aqueles que os escutam. Esses, pensam ser os investigadores, tipo Sócrates, descrentes dos deuses. Por isso, representam perigo para Sócrates.
As LEIS de Atenas, estão vulneráveis pela ação de Sócrates. Uma das regras básicas da democracia ateniense era a idéia de que o cidadão ora governa, ora é governado.
Neste momento insubmisso de Sócrates, obviamente ele estava sendo governado, e como tal, deveria obedecer.
Todos os fatos mostram como eram profundas as divergências entre Sócrates e sua cidade.

Esse processo criminal, de um crime ocorrido há aproximadamente 2407 anos atrás, se configura contemporâneo, se evocarmos o papel das constituições na história dos Estados:
Segundo Aristóteles, A BONDADE OU A MALDADE, A JUSTIÇA OU A INJUSTIÇA DAS LEIS VARIAM TAL QUAL AS CONSTITUIÇÕES DAS CIDADES.
Montesquieu define que LEIS DEVEM SE REFERIR AO GRAU DE LIBERDADE QUE A CONSTITUIÇÃO PODE SUPORTAR.
“ É imperioso que paralelamente ao exame das INSTITUIÇÕES JURÍDICAS, se analisem os FATOS CULTURAIS e POLÍTICOS que serviram de suporte ao ORDENAMENTO JURÍDICO".
Aqui fica muito clara, a condenação de Sócrates, destacadamente, em promover a desordem social, fragilizar lideranças políticas da cidade, dentre outros aspectos.

Considerando todas esses fatos e circunstâncias, reiteraremos a CONDENAÇÃO de SÓCRATES, conjugando não o tempo cronológico, mas o sentido do próprio trabalho de investigação de Sócrates, que nos remete a INDAGARMOS o CONHECIMENTO COMO CRENÇA VERDADEIRA JUSTIFICADA, QUE NÃO É O CONHECIMENTO DA CERTEZA E QUE ELE PROPRIO, FERIU:

O QUE É O DIREITO?
“Direito é uma espécie de garantia – de garantia de exercício de um poder”.

O QUE É A JUSTIÇA?
“Na passagem da cultura grega para a cultura romana, surgiu a idéia de justiça como classificação da igualdade e da liberdade. Os gregos não faziam uma distinção nítida entre Direito, moral e Política, são aspectos de uma mesma totalidade, compreende todos esses conceitos”.

O QUE É A LEI?
“Lei é toda norma geral de conduta, que disciplina as relações de fato incidentes no direito e cuja observância é imposta pelo poder estatal”...

O QUE É A DESORDEM SOCIAL?
“Perturbação da ordem pública; prática de atos que perturbam o sossego alheio, tida como contravenção penal”.


O QUE É A INJURIA?
“Insulto; afronta; ofensa; agravo ao decoro ou à dignidade de alguém”...

O QUE É JUSTO?
“Que é conforme a um direito;aquilo que possui um bom juízo moral; aquilo que é conforme a justiça”.

O QUE É A VIRTUDE?
“Uma disposição constante, habitual ou firme da alma que levam o homem a praticar o bem ou evitar o mal, equivalendo a uma força moral”.

Responder à estas questões, O JULGAMENTO ESTARIA PERMANENTEMENTE ATUAL, ATUALIZADO E PORTANTO CONTEMPORÂNEO.

“Sócrates é condenado de acordo com as leis do justo e injusto, honesto e desonesto, do bem e do mal".
O bem justo é aquele que segue as normas e condutas impostas pela lei”.
Segundo as leis de Atenas, as normas de justiça de atenas, ele tem opção de sair da sua pátria e ficar isento da morte.

A âncora da sua investigação, o CONHECE-TE A TI MESMO, fez Atenas conhecer-se a si mesmo e isto configurou seu crime;

OFENDEU A DIGNIDADE E O DECORO DAS PERSONALIDADES POLÍTICAS; DE POETAS; ARTÍFICES, evidenciando que aqueles que se julgavam sábios, efetivamente nada sabiam; feriu a ordem social, subvertendo-a, mobilizando os jovens e tornando-os adeptos de suas idéias.
Também no exercício do seu método, violou o direito dos sofistas causando prejuízo a elite da polis, da cidade, praticou dolosamente, com a intenção de transformar mentes fracas em fortes, trazendo consciência das limitações daqueles que governavam, com implicações na democracia, pois achava que aquele que realmente sabe, é aquele que está apto a governar.
Incitou a pratica da desobediência à lei, quando fortaleceu a mente dos jovens, não quis sair da cidade, desenvolvia seu trabalho gratuitamente, o que contraiava o modelo de ensino que cabia às famílias promoverem, antes dos dezoito anos, com pagamento.
As qualificadoras, INJURIA, e DIFAMAÇÃO é consequencia efetiva da sua investigação.
"O direito de um povo se revela autentico quando retrata a vida social, quando se adapta ao momento histórico, quando evolui a medida que o organismo social ganha novas dimensões".
Em qualquer tempo a desordem social é sempre instrumento de colocar em cheque o ordenamento jurídico vigente, as revoluções são resultado de idéias, ideais, conhecimentos, e os males que podem provocar na sociedade, como a morte de multidão de inocentes, não pode ser descartados.
O julgamento de Sócrates foi um julgamento de IDÉIAS, e IDÉIAS REVOLUCIONÁRIAS, sempre estão sendo julgadas, na história da humanidade.
Sócrates foi o primeiro na história, a morrer por extrapolar seus direitos de liberdade e de expressão de pensamento, por desfavorecer a sociedade, por não respeitar as diferenças!

As idéias de Sócrates, colocaram em cheque a democracia de sua cidade, quando dizia que o sábio é quem tinha condições de governar, isso implicava em destituir o poder de Atenas, que necessariamente não estava nas mãos dos sábios. Esses que se diziam sábios e nada sabiam, como se retrataram, no processo de interpretar seus conhecimentos. E Sócrates se sabendo não sábio teria maior sabedoria, por reconhecer sua ignorância. Neste sentido, ele era o apto a ocupar o poder e todos se sentiram ameaçados, na condição de não sábios.
“Sócrates não defendia nem a democracia nem a oligarquia. Seu ideal apresentado em Xenofonte e em Platão, não era o poder exercido pela maioria nem pela minoria e sim – segundo Xenofonte – ‘por aquele que sabe’.
Ainda segundo Xenofonte, ..."Sócrates ensinou seus discípulos a desprezar as leis atenienses, fazendo com que eles menosprezassem a constituição em vigor e se tornassem violentos, ou seja, dispostos a usar a força para derrubá-la”.
A nossa lei de imprensa, lei No. 5250 de 9/02/1967, no seu
Cap. I DA LIBERDADE DE MANIFESTAÇÃO DO PENSAMENTO E DA INFORMAÇÃO:
Art. 1. É livre a manifestação do pensamento e a procura, o recebimento e a difusão de informações ou idéis, por qualquer meio, e sem dependência de censura, respondendo cada um, nos termos da lei, pelo abuso que cometer.

Parágrafo primeiro: não será tolerada a propaganda de guerra, de processos de sub-versão da ordem política e social ou de preconceitos de raça ou classe.
Art. 12- Aqueles que, através dos meios de informação e divulgação, praticarem abusos no exercício da liberdade de manifestação do pensamento ficarão sujeitos às penas desta lei e responderão pelos prejuízos que causarem.
Art. 14 – Fazer prpaganda de guerra, de processos para sub-versão da ordem pública e social ou de precnceitos de raça ou de classe:
PENA: de um a quatro anos de detenção.
Art. 17- Ofender a moral pública e os bons costumes:
PENA: detenção de três meses a um ano, e multa de um a vinte salários mínimos da região.

O seu Art. 49 diz:
Aquele que no exercício da liberdade de manifestação de pensamento e de informação com dolo ou culpa, viola direito, ou causa prejuízo a outrem, fica obrigado a requerer”.
A ação de Sócrates foi dolosa, tinha intenção de provar a ignorância da cidade de Atenas e promover as implicações que essas evdências ensejavam, o governo do sábio.

Outra implicação desse reconhecimento do não se ser sábio, pelos próprios governantes e governados, por eles mesmos e por toda a cidade de Atenas, era uma ação INJURIOSA por parte de Sócrates, pois toda a cidade de Atenas se reconhecendo não sabia, se sentiu ofendida na sua dignidade. A moral pública e os bons costumes de Atenas foram atingidos.


O gérmem do PENSAR, produziu revoluções; esquartejamentos; derrubada das torres gêmeas; crimes na internet; iletrados; fome; guilhotina; escola publica deficitária; criança e adolescente em situação de risco pessoal e social; a violência simbólica, a falta de indignação por injustiças.
O homem racional vive a violência e a indigência, tacitamente.

A provocação permanece na filosofia de Sócrates, produzindo novas vítimas. Agora o caso de Marilena Chauí, denunciado pelo filosofo Paulo Ghiradellii, sobre o equivoco do seu livro, com relação ao método socrático. A MAIÊUTICA foi derrubada , emerge agora o ELLENKOS.

Sócrates deu suporte às idéias de Augusto Comte, quando este idealizando a sociedade científica, afirmou: nasce a sociedade científica e morre a sociedade teológica. Comte deseja ser cientista e reformador. Também Karl Max. Mas até nossos dias, a religião permanece.
O Templo Positivista aqui no Brasil, continua vazio, a espera de FIEIS

AS IDÉIAS, E O CONHECIMENTO, QUANDO CONDUZIDOS PARA INTERESSES QUE FEREM A MORAL, A ÉTICA, A LEI, OS BONS COSTUMES, O PODER POLÍTICO, O PODER ECONÔMICO, A RELIGIÃO, A SOCIEDADE, PODERÃO FAZER VÍTIMA:
A FAMÍLIA, O ESTADO, A SOCIEDADE, A DEMOCRACIA, A LIBERDADE, A JUSTIÇA, DENTRE OUTROS, EM QUALQUER ORDENAMENTO JURÍDICO. DAÍ, A CONDENAÇÃO PELO FATO JURÍDICO, EM SÓCRATES, SER ATUAL E RAZOÁVEL!
RÉPLICA :
ACUSADORA MARIANA



SENHORES!
Este é um julgamento, de extrema excepcionalidade!
QUEM SÃO OS ATORES DESSA TRAGÉDIA?
No banco dos RÉUS, as idéias, o conhecimento, a filosofia que se inicia a investigar o pensar, as idéias, o conhecimento da verdade justificada, princípio das ciências humanas, da explicação; antes apenas conhecido o conhecimento das ciências exatas e da natureza, por excelência, descritivas.
Se vossas excelências julgarem com base nos malefícios que têm trazido as desordens sociais, as revoluções, as guerras, para a humanidade, condenarão o uso inadequado do “conhece-te a ti mesmo”!
Matemos as possibilidades de convulsões sociais!
Respeitemos as leis! Tanto de Atenas, quanto do nosso ordenamento jurídico!
A ação dolosa, porque intencional, de injuriar o poder, de colocar em risco a paz social, deve ser contida, em qualquer tempo, em qualquer espaço, portanto, condenemos!
Também, não se recorreu ao expediente legal de abandonar a cidade, prerrogativa existente, para extinção de jugamento criminoso!
Querer matar a democracia, é por em risco a liberdade e a igualdade!
O poder não pode ser apenas dos sábios!
Vejam vossas excelências, o nosso exemplo, de ter no poder um metalugico. O notório saber!
O professor da Sorbone, nos impôs sérios riscos, tornando MÍNIMO O ESTADO BRASILEIRO. O saber da academia!
A história está aí, para nos mostrar, o mau uso do conhecimento!
..."O que podemos afirmar sobre os intelectuais é que o que conta não é aquilo que se sabe, mas sim aquilo que se faz com aquilo que se sabe".
A brilhante DEFESA, mostra que é possível, encontrar, jurisprudências para o caso, esta é a beleza do direito!
Excelências! Volto a clamar pela condenação do MAU USO DO SABER!
A HUMANIDADE PRECISA VIVER NO ESPAÇO-TEMPO, POR TODO O SEMPRE! O CONHECIMENTO TERÁ QUE TER USO CONSEQUENTE!
OS SENHORES ESTÃO APTOS A VOTAR , CONDENANDO O MAU USO DO CONHECIMENTO
!
ACUSADORA: CAROLINA SILVANY
Senhores jurados quem valorizou a razão colocando-a como instrumento mais importante para alcançar qualquer tipo de conhecimento, valorizando o questionamento, a investigação e a experiência como forma de conhecimento tanto da natureza quanto da sociedade, política e economia?Quem buscava o questionamento, a indagação, a ruptura com o que já estava estabelecido com o que já estava estabelecido e percebido como obvio?Defendia a liberdade e criticava a Igreja, é eu poderia estar falando do Iluminismo, mas como falar do Iluminismo sem falar de Sócrates, sem falar do fundador das idéias do iluminismo e de tantos outros movimentos desordeiros. Afinal o Iluminismo foi um legado de Sócrates.
Foram esses questionamentos, esse liberalismo, a falta de respeito ao Estado que infligiu a ordem e continua afetando nossas nações.A Lei nº 7.170/1983, surgida quando a ditadura militar debatia-se em sua crise terminal, criou diversos crimes definidos como "contra a segurança nacional e a ordem política e social". Tal lei, ainda em vigor, prescreve como delitos condutas do tipo: tentar mudar, com violência ou grave ameaça, a ordem, o regime vigente ou o Estado de Direito (art. 17); fazer propaganda de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social (art. 22, I) e incitar à subversão da ordem política ou social (art. 23, I), entre outras.Esta no nosso código penal.

Sócrates ensinou, incentivou e preparou grupos de jovens para realizar futuros movimentos, formando verdadeiros lideres de revoluções.Corrupção de menores está previsto no art. 218 do Código Penal brasileiro.
Esse dispositivo tutela os bons costumes, em especial a moral sexual do menor de 18 anos. O ato desse crime é Corromper, que significa, perverter, depravar, etc ou Facilitar em que o agente presta auxílio, ajuda ou favorece os desejos do menor. O delito se consuma com a efetiva prática do ato libidinoso.

Vocês sabem o que é uma revolução?Revolução é um crime, um crime que hoje é imposta ao mundo como ideologia revolucionária. Senhores jurados, o que é revolucionário?É a modificação de forma violenta da ordem social e institucional. Como pode um grupo regido pelas idéias socráticas mudar violentamente uma sociedade sem antes mudar o homem?Ninguém muda a cultura de uma hora para outra.

LEI Nº 7.170, DE 14 DE DEZEMBRO DE 1983.
Define os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social
Art. 22 - Fazer, em público, propaganda:
I - de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social;
II - de discriminação racial, de luta pela violência entre as classes sociais, de perseguição religiosa;
III - de guerra;
IV - de qualquer dos crimes previstos nesta Lei.
Pena: detenção, de 1 a 4 anos.
Art. 23 - Incitar:
I - à subversão da ordem política ou social;
II - à animosidade entre as Forças Armadas ou entre estas e as classes sociais ou as instituições civis;
III - à luta com violência entre as classes sociais;
IV - à prática de qualquer dos crimes previstos nesta Lei.
Pena: reclusão, de 1 a 4 anos.
Art. 24 - Constituir, integrar ou manter organização ilegal de tipo militar, de qualquer forma ou natureza armada ou não, com ou sem fardamento, com finalidade combativa.
Revolução ou guerra civil? O que causa tanto medo, morte de milhares e milhares de homens, mulheres e crianças vítimas desses questionamentos que tiram à paz e causa desordem em uma sociedade. Esses questionamentos, e idéias nocivas do homem que dizia nada saber, porem, mas parecia um político em época de campanha fermentando o povo contra os representantes da sociedade, contra a Igreja. Sócrates é culpado pela ruptura do estabelecido, pela ruptura do obvio, é responsável pelas conseqüências que esses questionamentos causaram.

Sócrates influenciou e impactou na nossa historia, quantas revoluções surgiram baseadas em suas idéias?

Em 1776 a revolução Americana, na idéia do liberalismo socrático, questionou o poder, foi essa serie de indagações que deu vazão a uma devastadora destruição de casas que queimaram em chamas e destruiu muitas cidades Americanas, foi a ruptura da paz, durante 50 anos de muitas rebeliões e mortes.
Coincidência? Será mesmo que foi coincidência a revolução americana também ser influenciada pelos ideais iluministas, fundamentados e conceituados por Sócrates?
Por que tantas rebeliões e mortes pela posse de terras, dinheiro privilégio e poder?
Até hoje sofremos com essas idéias malucas de Sócrates, pois antes as brigas eram entre os proprietários das terras e os camponeses e hoje? Hoje é entre os empregadores e funcionários, ou seria os operários, que também ocupam o poder, a presidência.
Ainda não podemos esquecer a Revolução Francesa, mais mortes sem piedade, usando da força e violência, impondo mudanças e deixando 1000000 de mortos. Um dos movimentos mais criminosos da historia.
Não estou falando apenas de ideais, não to falando de um pensador, pois Sócrates era político disfarçado de filosofo,que agia pensada mente, formando,corrompendo e atuando em grupos sociais.
Quadrilha ou bando: artigo 288 do Código Penal - é crime contra a paz pública.
"Associarem-se mais de três pessoas, em quadrilha ou bando, para o fim de cometer crimes":
Pena - reclusão, de um a três anos.
Sócrates corrompeu sociedades durantes décadas, influenciando em muitas revoluções e movimentos, ate os dias de hoje, influenciou em muitas revoluções e movimentos, ate os dias de hoje, influenciou ate na Reforma Agrária.
Existe um exemplo bem brasileiro, a inconfidência mineira que se iniciou como uma conspiração, crescendo e fortalecendo-se em um grande grupo, tornando-se uma revolução inspirada pelas idéias iluministas da França na época da recente independência Norte-Americana.
O movimento mineiro defendia a "Liberdade ainda que tardia", pois, Joaquim da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes, liderava o movimento inspirando-se nos ideais de sócrates, tentou ser alem do minerador, o político filosofo brasileiro.
Sócrates durante décadas Senhores jurados quem valorizou a razão colocando-a como instrumento mais importante para alcançar qualquer tipo de conhecimento, valorizando o questionamento, a investigação e a experiência como forma de conhecimento tanto da natureza quanto da sociedade, política e economia?
Quem buscava o questionamento, a indagação, a ruptura com o que já estava estabelecido com o que já estava estabelecido e percebido como obvio?
Defendia a liberdade e criticava a Igreja, é eu poderia estar falando do Iluminismo, mas como falar do Iluminismo sem falar de Sócrates, sem falar do fundador das idéias do iluminismo e de tantos outros movimentos desordeiros. Afinal o Iluminismo foi um alegado de Sócrates.
Foi esses questionamentos, esse liberalismo, a falta de respeito ao Estado que infligiu a ordem e continua afetando nossas nações.A Lei nº 7.170/1983, surgida quando a ditadura militar debatia-se em sua crise terminal, criou diversos crimes definidos como "contra a segurança nacional e a ordem política e social". Tal lei, ainda em vigor, prescreve como delitos condutas do tipo: tentar mudar, com violência ou grave ameaça, a ordem, o regime vigente ou o Estado de Direito (art. 17); fazer propaganda de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social (art. 22, I) e incitar à subversão da ordem política ou social (art. 23, I), entre outras.Esta no nosso codigo penal.

Sócrates ensinou, incentivou e preparou grupos de jovens para realizar futuros movimentos, formando verdadeiros lideres de revoluções.Corrupção de menores está previsto no art. 218 do Código Penal brasileiro.
Esse dispositivo tutela os bons costumes, em especial a moral sexual do menor de 18 anos. O ato desse crime é Corromper, que significa, perverter, depravar, etc ou Facilitar em que o agente presta auxílio, ajuda ou favorece os desejos do menor. O delito se consuma com a efetiva prática do ato libidinoso.

Vocês sabem o que é uma revolução?Revolução é um crime, um crime que hoje é imposta ao mundo como ideologia revolucionária. Senhores jurados, o que é revolucionário?É a modificação de forma violenta da ordem social e institucional. Como pode um grupo regido pelas idéias socráticas mudar violentamente uma sociedade sem antes mudar o homem?Ninguém muda a cultura de uma hora para outra.
LEI Nº 7.170, DE 14 DE DEZEMBRO DE 1983.

Define os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social

Art. 22 - Fazer, em público, propaganda:
I - de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social;
II - de discriminação racial, de luta pela violência entre as classes sociais, de perseguição religiosa;
III - de guerra;
IV - de qualquer dos crimes previstos nesta Lei.
Pena: detenção, de 1 a 4 anos.
Art. 23 - Incitar:
I - à subversão da ordem política ou social;
II - à animosidade entre as Forças Armadas ou entre estas e as classes sociais ou as instituições
civis;
III - à luta com violência entre as classes sociais;
IV - à prática de qualquer dos crimes previstos nesta Lei.
Pena: reclusão, de 1 a 4 anos.
Art. 24 - Constituir, integrar ou manter organização ilegal de tipo militar, de qualquer forma ou natureza armada ou não, com ou sem fardamento, com finalidade combativa.

Revolução ou guerra civil? O que causa tanto medo, morte de milhares e milhares de homens, mulheres e crianças vítimas desses questionamentos que tiram à paz e causa desordem em uma sociedade. Esses questionamentos, e idéias nocivas do homem que dizia nada saber, porem, mas parecia um político em época de campanha fermentando o povo contra os representantes da sociedade, contra a Igreja. Sócrates é culpado pela ruptura do estabelecido, pela ruptura do obvio, é responsável pelas conseqüências que esses questionamentos causou.
Sócrates influenciou e impactou na nossa historia, quantas revoluções surgiram baseadas em suas idéias?
Em 1776 a revolução Americana, na idéia do liberalismo socrático, questionou o poder, foi essa serie de indagações que deu vazão a uma devastadora destruição de casas que queimaram em chamas e destruiu muitas cidades Americanas, foi a ruptura da paz, durante 50 anos de muitas rebeliões e mortes.
Coincidência?Será mesmo que foi coincidência a revolução americana também ser influenciada pelos ideais iluministas, fundamentados e conceituados por Sócrates?
Por que tantas rebeliões e mortes pela posse de terras, dinheiro, privilegio e poder.
Até hoje sofremos com essas idéias malucas de Sócrates, pois antes as brigas eram entre os proprietários das terras e os camponeses e hoje?Hoje é entre os empregadores e funcionários, ou seria os operários, que também ocupam o poder, a presidência.
Ainda não podemos esquecer a Revolução Francesa, mais mortes sem piedade, usando da força e violência, impondo mudanças e deixando 1000000 de mortos. Um dos movimentos mais criminosos da historia.
Não estou falando apenas de ideais, não to falando de um pensador, pois Sócrates era político disfarçado de filosofo,que agia pensada mente, formando,corrompendo e atuando em grupos sociais.
Quadrilha ou bando: artigo 288 do Código Penal -
é crime contra a paz pública "Associarem-se mais de três pessoas, em quadrilha ou bando, para o fim de cometer crimes: Pena - reclusão, de um a três anos.
Sócrates corrompeu sociedades durantes décadas, influenciando em muitas revoluções e movimentos, ate os dias de hoje, influenciou em muitas revoluções e movimentos, ate os dias de hoje, influenciou ate na Reforma Agrária.
Existe um exemplo bem brasileiro, a inconfidência mineira que iniciou-se como uma conspiração, crescendo e fortalecendo-se em um grande grupo, tornando-se uma revolução inspirada pelas idéias iluministas da França na época da recente independência Norte-Americana.
O movimento mineiro defendia a "Liberdade ainda que tardia", pois, Joaquim da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes, liderava o movimento inspirando-se nos ideais de Sócrates, tentou ser alem do minerador, o político filosofo brasileiro.
Sócrates durante décadas, séculos influenciou fatores externos, fatores regionais e econômico de nações e nações.
A independência dos estados unidos, a revolução francesa, a revolução mineira, todas essas revoluções foram totalmente influenciadas pelos princípios iluminista, que por sua vez foi criado e fundamentado por Sócrates, pelas idéias malucas e terroristas que marcaram a passagem da Idade Moderna para a Idade contemporânea, nos deixando o legado dessa cruela sociedade capitalista, que deu após mais uma revolução, a industrial.

Pois bem meu amigo, quem se dizia nada saber, deixa hoje quem sabe ser substituído por máquinas, e o ensino a distancia no mundo virtual também desemprega.

Sócrates influenciou fatores externos, fatores regionais e econômico de nações e nações. A independência dos estados unidos, a revolução francesa, a revolução mineira, todas essas revoluções foram totalmente influenciadas pelos princípios iluminista, que por sua vez foi criado e fundamentado por sócrates, pelas idéias malucas e terroristas que marcaram a passagem da Idade Moderna para a Idade contemporânea , nos deixando o legado dessa cruela sociedade capitalista, que deu apos mais uma revolução, a revolução industrial.
Pois , bem meu amigo, quem se dizia nada saber, deixa hoje quem sabe ser substituído por maquinas,e o ensino a distancia no mundo virtual também desemprega.

Que o réu seja condenado a Pena máxima.
ACUSADORA: INEZ MARIA
PERGUNTAS PARA AS PERSONALIDADES, TESTEMUNHOS DA HISTÓRIA:
PARA SÓCRATES:
SOCIEDADE ATENIENSE Construiu UMA CULTURA QUE se REFLETE ATÉ NOSSOS TEMPOS, > Destacadamente através de vossas idéias e pensamentos, que partindo da indagação do conhece-te a ti mesmo, fizeram florescer o conhecimento.
Seu pensamento é semente que fecunda até nossos dias.
Mas o conhecimento, este bem maior, vem sendo utilizado, nem sempre, visando o bem comum, a liberdade, a igualdade, que como sabemos desde o seu exercicio inicial, de provar que ninguem era sabio em Atenas, e que mesmo vós, sabia que nada sabia, colocou a sociedade ateniense exposta a sua própria insuficiência, trazendo-vos, até este tribunal, em 399 a. C..
Como reicidente, retornas a este tribunal, neste tempo de 2008, para responder solidariamente, sobre todas as revoluções perpetradas pela humanidade, motivadas pela semente do pensamento, que gestado e nascido em Atenas, teima em percorrer o mundo e permanecer se expandindo, que se vestindo da sabedoria, promove também o bem e o mal.
Vós o' cidadão livre de Atenas, QUE INFLUENCIOU, TODAS AS REVOLUÇÕES DO MUNDO, QUER SEJA na FRANça, na america, no Brasil e tantos outros lugares do planeta, reconhece OS MALES, QUE foram DISSEMINados PELO MUNDO, pela sabedoria desviada do seu uso virtuoso, O MAL USO DAS IDÉIAS, do conhecimento?
RESPOSTA DE SÓCRATES:
-"SÓ SEI QUE NADA SEI"!!!
-Cidadão Sócrates, responde-nos, já que retornas a este tribunal, em pleno século XXI, sobre esse novo debate na academia, levantado sobre MAIÊUTICA e ELENCHUS, que envolve o seu modo de filosofar!
-Vou deixar que o Filósofo brasileiro, PAULO GHIRALDELLI JR., responda!
PAULO GHIRALDELLI JR. com a palavra:
Vlastos expôs, como ninguém havia feito antes, Sócrates como um filósofo que não fez epistemologia, ou seja, que não discutiu o seu método – o elenchus –,mas apenas o utilizou. Grosso modo, a idéia de Sócrates era simples. Ele perguntava ao seu interlocutor algo como “o que é a coragem”. Seu interlocutor respondia citando casos de homens corajosos. Sócrates mostrava que aquilo era uma situação particular, e não servia como uma definição – a explicitação de um conceito – de coragem. O interlocutor ficava em um impasse e, então, esperava a definição que deveria vir de Sócrates. Mas este também não dava a definição, como se não pudesse fazê-lo ou não soubesse mesmo dar um definição abrangente e segura.Vlastos colocou por terra, por exemplo, aquela velha historieta de que ométodo de Sócrates seria algo como que a “maiêutica”, a arte de parir idéias.Por essa velha e confusa interpretação, Sócrates agia no campo intelectual como sua mãe agiu na vida, uma vez que ela foi, de fato, parteira. Vlastos argumentou de modo suficiente que tal procedimento jamais foi utilizado pelo Sócrates histórico, e sim por um Sócrates que já era única e exclusivamente um personagem dos diálogos de Platão. Este último era, de fato, Platão, não mais Sócrates. Por meio de técnicas da filosofia analítica, Vlastos mostrou que o escravo ignorante que, uma vez inquirido por Sócrates, expõe um teorema matemático, faz algo que tem a ver com o que Platão defendeu como um método para o saber – a teoria da rememoração das idéias. O erro dos manuais brasileiros ou das histórias da filosofia no Brasil é o de acreditar que se trata,neste caso, do Sócrates histórico e que de fato existiu algo como a chamada“maiêutica”. Este nunca foi o método de Sócrates e nem mesmo uma parte do método. Ora, se os manuais brasileiros querem afirmar o que afirmam, então ao menos deveriam refutar Vlastos. (O Boom Socrático Paulo Ghiraldelli Jr)

6 comentários:

Carolina disse...

Mari..passei aqui..n vejo a hora de apresentar logo.
bj

jailda disse...

Mariana,
Achei excelente. Vc está de parabéns.
Quanto maior a dificuldade, maior será o mérito.
Bjs,
Jailda

Mariana MÃE disse...

-QUE SÓCRATES ESTUDAMOS EM MARILENA CHAUI?

-O SÓCRATES QUE MARILENA CHAUI E OUTROS AUTORES BRASILEIROS, APRENDERAM E ESCREVERAM, FOI COMPLETAMENTE RECONSTRUÍDO PELO DEBATE, DURANTE O SÉCULO XX.

É O QUE AFIRMA O FILóSOFO PAULO GHIRALDELLI JR.

Leia o texto deste filósofo a seguir, na íntegra.


Sócrates e o Erro de Marilena Chauí
Paulo Ghiraldelli Jr.

Não há dúvida da utilidade do livro Introdução à história da filosofia, de
Marilena Chauí (São Paulo: Cia. das Letras, 1994). Os livros paradidáticos, em
nosso país, desempenham um papel fundamental. Em geral, formam a opinião
dos que serão, depois, nossos scholars. Não raro, em muitos assuntos, essa
opinião é aquela que “ficará para sempre” com os nossos professores e
pesquisadores, inclusive os de filosofia. Mesmo entre aqueles estudantes que,
uma vez maduros, se envolvem diretamente com filosofia, são poucos os que
voltam a estudar Sócrates e, portanto, a maioria termina por trabalhar uma
vida toda com “aquele Sócrates da graduação”. Por isso, entre nós, levar a
sério paradidáticos é, de certo modo, uma tarefa central se quisermos
entender a cultura filosófica geral vigente entre os nossos filósofos. É uma
tarefa básica para quem está interessado em fazer com que o nível médio dos
filósofos de nosso país, em um futuro próximo, possa se adequar aos padrões
internacionais.
Não quero que o leitor fique mobilizado pelo meu texto negativamente. Não
quero que acredite que minhas divergências vão no sentido de colocar o livro
de Marilena Chauí em uma posição secundária. De modo algum. Já de partida,
afirmo: o livro é bom e, afinal, quem fez outro similar entre nós? Ninguém! Não
temos livros de história da filosofia dedicados à antiguidade com a pretensão
de abrangência deste de Chauí. Então, por isso mesmo, temos a obrigação de
lê-lo com carinho e utilizá-lo. Mas temos também a obrigação de criticá-lo. Não
vou criticá-lo tomando o texto em vários capítulos ou temas. Não tenho espaço
aqui para tal. E essa tarefa demandaria eu escrever outro livro, exatamente na
medida do meu respeito por tal peça de Chauí. Meu problema aqui é restrito ao
Sócrates de Marilena Chauí.
Quem é Sócrates? Essa questão, infelizmente, não é assumida como
importante no livro. A tradição de nossos estudos filosóficos parece pesar
demais nos ombros da autora. É uma tradição muito restrita quanto à filosofia
antiga e, talvez isso, já tenha comprometido o livro em um capítulo importante,
o capítulo sobre o “pai da filosofia Ocidental”.
A literatura sobre Sócrates produzida no Brasil é pequena. A maior parte dela
está em livros paradidáticos. A visão geral contida nesses livros é a de um
Sócrates criado a partir de alguma bibliografia de língua francesa e, às vezes,
alemã. Aqui e ali, desponta a literatura italiana, mas apenas como reforço.
Muito da bibliografia “continental” sobre Sócrates, que os autores brasileiros
usam para escrever seus próprios manuais, está alicerçada em autores do
século XIX. Nossas publicações neste campo seguem os manuais que não
incorporaram a maior parte do debate sobre o assunto em um século todo – o
século XX –, principalmente o ocorrido em língua inglesa a partir dos anos trinta
e, especialmente após II Guerra. Três textos de “autores nossos” que são
usados pelos estudantes brasileiros mostram bem isso. São os livros de
Francis Wolff e Danilo Marcondes, e a introdução da Coleção Os Pensadores,
que não tem autor, apenas consultor, que foi o José Américo Mota Pessanha
(1936-1993) (Sócrates. São Paulo: Brasiliense, 1980; Iniciação à história da
filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1997; Sócrates. São Paulo: Abril Cultural,
1980). Os três autores são de competência incontestável. No caso de
Pessanha, temos ainda de ressaltar que ele foi um autêntico scholar da filosofia
clássica antiga (e idealizador da Coleção “Os Pensadores”). Portanto, a
questão que me incomoda não é uma “questão menor”, surgida por causa de
deslize de um ou outro autor, porventura não preparado para a tarefa que quis
desempenhar. Eles não estavam despreparados. Não houve deslize. O
Sócrates que eles apresentaram era o Sócrates que tinham, o que aprenderam.
Era o que entendiam que estava não só correto, mas finalizado. Todavia,
enquanto escreviam seus textos, o Sócrates que aprenderam estava sendo
completamente reconstruído pelo debate que, durante o século XX,
principalmente nos países de língua inglesa (mas não só), cresceu muito. E o
helenismo nesses países se desenvolveu bem mais do que no resto do mundo,
ao menos no século XX. De certo modo, parece que esse tipo de problema, isto
é, o de ficar restrito a um tipo de literatura datada, atingiu Marilena Chauí. E se
atingiu uma filósofa ativa e que trabalhou em uma metrópole como São Paulo,
então, é algo que deve ser levado a sério em relação à educação filosófica das
novas gerações em um país como o nosso, de dimensões continentais e com
carência de centros de formação e informação.
Esses livros de “autores nossos” mostram um Sócrates que fica bem aquém
daquele dos dilemas que são notados pela literatura de língua inglesa (e outras,
que agora crescem sob o empurrão daquela), mesmo se considerarmos
somente a literatura contida em livros correspondentes aos citados, ou seja, a
literatura de manual, em especial os de história da filosofia. E que Sócrates é
este, o de “autores nossos”?
Em geral, a figura de Sócrates que os autores citados apresentam é a de
alguém que pode criar “confusões” em seus interlocutores por meio de sua
ironia, que pratica algo como uma “dialética” e, enfim, que tem um método
chamado de maiêutica. Tal método faria o interlocutor parir o conhecimento,
tirar o conhecimento do interior de si mesmo. Além disso, esse Sócrates
também aparece detendo a capacidade de serenidade, de valorizar a alma e
não o corpo, de defender a tese de que virtude é conhecimento. Pouca coisa a
mais. Em todos eles, Sócrates aparece de um modo bem mais pobre do que a
literatura internacional atual mostra. O Sócrates que os “autores nossos”
mostram não mereceria mais que um artigo de algum historiador ou filósofo. E,
no entanto, Sócrates é o filósofo que, na literatura internacional, mais gerou
artigos – e isso sem considerar sua idade na história da filosofia, e admitindo
somente o período contemporâneo.
Mas uma coisa é apresentar um Sócrates empobrecido, outra coisa é
apresentar um Sócrates que, diante da literatura atual, não mais
reconheceríamos como sendo Sócrates. E, neste caso, é na questão do
“método de Sócrates” que vale a pena centrar a atenção, na leitura crítica do
livro de Marilena Chauí. É no âmbito da discussão sobre o método que Marilena
Chauí costura uma explicação que, a essa altura da bibliografia internacional,
surge mais como um remendo que é necessário aposentar. É o que exponho
abaixo.
Marilena Chauí mostra o “método socrático” como tendo duas partes, sendo
uma delas subdivida. Segundo ela há o protréptico e o elenkhos; e neste último
cabe a “ironia” e a “maiêutica”. O Sócrates de Marilena Chauí não é mais
complexo do que o de Wolff e Marcondes. É um Sócrates simples – demais de
simples. No entanto, aqui, no tema do método, há esse exagero classificatório
que torna tudo mais complexo e, pior, incapaz de funcionar. Ou seja, um
Sócrates descrito de maneira desdramatizada e, no entanto, complexo quanto
ao tema do método. Qual a razão de não funcionar? Simples: uma parte da
classificação exclui a outra. E isso não é visível apenas quando pegamos os
scholars internacionais que, atualmente, comentam a filosofia de Sócrates,
para comparar com o mostrado por Chauí. No próprio texto de Marilena Chauí a
situação fica contraditória.
Ela diz que o protréptico é a “exaltação”, em que “Sócrates convida o
interlocutor a filosofar, a buscar a verdade”. Diz, também, que o elenkhos é a
“indagação”, em que Sócrates faz perguntas e comenta as respostas e volta a
perguntar, e “caminha com o interlocutor para encontrar a definição da coisa
procurada”. A ironia é usada, então, internamente ao elenkhos, para refutar o
interlocutor, “para quebrar a solidez aparente dos preconceitos”. A maiêutica,
por sua vez, é uma forma de perguntar que “vai sugerindo caminhos ao
interlocutor até que este chegue à definição procurada”. Ela acrescenta, ainda,
a epistéme, ou seja, a ciência, como o resultado do método – que nada mais é
que a definição do que é procurado e encontrado, ou seja, “a idéia verdadeira”
(p. 190).
Bem, antes de tudo, um alerta sobre a palavra elenkhos. Trata-se de
“refutação” e até mesmo de censura, de admoestação. Sócrates nunca usou
essa palavra. Ela é uma palavra grega, sim, mas colocada na literatura sobre
Sócrates em meados do século XX. Richard Robinson é aceito por vários
scholars como o seu introdutor. Foi aceita pelos scholars, pois a maioria
chegou a um acordo sobre o uso da “refutação” como um modo de conversa
em filosofia grega, já desde Parmênides. Todavia, uma parte dos scholars não
aceita facilmente que Sócrates tenha formulado, de fato, um “método” (ver:
Scott, G. A. Does Socrates have a method? University Park, Pennsilvania:
Pennsilvania State University Press, 2002). Com Marilena Chauí a palavra
elenkhos perde a força, pois vira “indagação”, e a refutação cai para a palavra
“ironia”, o que é uma interpretação muito esquisita de Sócrates, pois os
significados prioritários são substituídos pelos significados secundários em
ambas as palavras. Além disso, hoje em dia, a “ironia” socrática está
reinterpretada pelos helenistas que aprenderam técnicas de investigação com
os filósofos analíticos. Gregory Vlastos (1907-1992), inclusive, mostrou como
que foi a partir de Sócrates e com Sócrates que a palavra “ironia” ganhou a
conotação que temos hoje dela, a corriqueira utilizada nos dicionários (Vlastos,
G. Socrates: ironist and moral philosopher. Cambridge: Cambridge University
Pres, 1992). E a tal ironia não tem a ver, propriamente, com o método socrático
(para quem, como Vlastos, aceita que Sócrates tenha tido um “método”) – ela
foi exercida em circunstâncias as mais diversas nos diálogos de Sócrates.
É muito difícil e, talvez impossível mesmo, encontrar algum scholar atual que
endosse a descrição de Marilena Chauí sobre o “método”. Nos livros de língua
inglesa, então, seria uma tarefa árdua imaginar uma explicação desse tipo. Mas
não por causa de que os outros scholars, simplesmente, possuem perspectivas
diferentes da dela. Mas, sim, porque o que ela faz não coaduna com os textos
de Platão a que ela própria recorre. E no próprio livro, quando lido com
atenção, deixa isso transparecer de modo nítido. Pois ela, para exemplificar o
uso do método, pega não só um exemplo, mas dois, e nenhum deles apresenta
o tal esquema que ela montou e, pior ainda, nenhum deles chega a qualquer
definição ou qualquer verdade final, que ela diz que o método alcança. Ela
escolhe o Laches e o Menon e ... nada! Estes textos platônicos, obviamente,
são diálogos que não fornecem nenhuma definição ao final. Então,
decepcionada, todavia sem jamais dar o braço a torcer (o que implicaria em
apagar o texto e fazer outro capítulo para Sócrates), ela resolve a situação
dizendo o seguinte: são “diálogos aporéticos”. Ou seja, ela simplesmente
batiza os diálogos com o nome de “aporético” e, assim, não vê mais nenhuma
necessidade de explicar porque Sócrates não utilizou nos diálogos a
formalização do método como ela propôs e porque ele não chegou a definição
alguma. Não mostra isso, é claro, porque é impossível. Também não mostra
como que existiriam outros diálogos, não aporéticos, considerados como
socráticos, onde o filósofo ateniense chegaria de fato à “idéia verdadeira”,
como ela diz que deveria chegar. O que ocorre é que o Sócrates de Marilena
Chauí não é nem o “Sócrates histórico” e nem o “Sócrates de Platão”. Qual
seria? O de Xenofonte? O de Aristóteles? Também não! E mesmo que fosse, são
os textos de Platão que ela utiliza! E são os textos de Platão que a desmentem.
Não os textos que eu teria em mente, para complicar a vida dela, mas os que
ela mesma apresentou.
Eu poderia enxergar outros problemas no Sócrates de Marilena Chauí. Por
exemplo, munido de Gregory Vlastos, que ela cita (o único autor de língua
inglesa, mais contemporâneo, que ela cita, e assim mesmo em um único artigo
– em francês, é claro), eu poderia mostrar as diferenças – colocadas por ela no
capítulo em questão – entre o chamado “Sócrates histórico” e o “Sócrates de
Platão”. Então, ficaria claro que o Sócrates dos primeiros diálogos de Platão, o
“Sócrates histórico”, não poderia aparecer no Menon. O Menon tem sido (para
a maioria dos intérpretes) um diálogo do “período intermediário” dos escritos
platônicos, em que o possível “Sócrates histórico” estaria sendo substituído
pelo Sócrates já completamente platonizado, um Sócrates capaz, inclusive, de
discutir matemática e iniciar investigações epistemológicas e metafísicas que,
enfim, foram platônicas. Sabemos que o próprio Platão, na “Defesa de
Sócrates”, colocou na boca do que seria o “Sócrates histórico” frases bem
claras sobre a preocupação socrática apenas com questões morais, nunca
com questões de segunda ordem (metafísica e epistemológicas) ou mesmo
com questões sobre a natureza, lógica ou ciências.
Parece, então, que Marilena Chauí poderia se safar da minha crítica, aqui,
dizendo o seguinte: ninguém sabe dizer ao certo em que parte fala Sócrates e
em que parte fala Platão, na medida em que o personagem de Platão, que fala
nos diálogos, chama-se Sócrates – e ponto final. Isso seria uma resposta.
Porém, uma resposta péssima. De certo modo, ela tenta começar o assunto
dizendo isso, que não haveria um “Sócrates verdadeiro”, e sim um “Sócrates
provável” (p. 183). Essa sua afirmação quase é correta. Mas não é. Ela mesma
a desmente, pois parágrafos adiante ele pega uma citação de Gregory Vlastos
para mostrar as diferenças entre o “Sócrates histórico” e o “Sócrates apenas
personagem de Platão”. O que Vlastos chama de “Sócrates histórico”, de fato,
não é propriamente um “Sócrates autêntico” – claro que não. Mas aqui o leitor
tem de ter cuidado: Vlastos concorda que aquilo que ele chama de “Sócrates
histórico” é tão criação de Platão quanto o Sócrates que, após os primeiros
diálogos, continua a ser personagem de Platão. Todavia, Vlastos, como tantos
outros, sabe que o que ele chama de “Sócrates histórico” é tão diferente do
segundo Sócrates, o dos diálogos intermediários, e, enfim, tão diferente do que
ficou conhecido, (principalmente por meio de Aristóteles e outros) como sendo
Platão, que não vale a pena não apostar que o primeiro teria alguma coisa do
autêntico Sócrates.
Os scholars conseguem distinguir onde começa senão a diferença entre
Sócrates e Platão, ao menos a diferença entre um Platão e outro Platão que,
enfim, seria um esquizofrênico se fosse uma única pessoa. Ou, dizendo de
modo melhor, mais ou menos como Vlastos afirmou: caso exista um único
Sócrates em Platão, então ele é esquizofrênico. Por outro lado, caso ainda
Marilena Chauí insistisse nisso, que o que existe mesmo é o insolúvel
“problema Sócrates-Platão”, e que de fato ela faz parte da corrente que
procura não distinguir quem seria Sócrates e quem seria Platão, então, que ela
fizesse como aqueles outros que não escreveram sobre Sócrates, apenas
sobre Platão. Para que escrever um capítulo sobre Sócrates se ele não pode
ser distinto de Platão? Para que um capítulo, antes do de Platão, onde Sócrates
arranca o “teorema de Pitágoras” do escravo jovem, uma situação que lembra
tudo aquilo que a maioria dos bons helenistas já considera uma situação
autenticamente platônica? Para que colocar Sócrates quase que como um
formulador da rememorização que, enfim, é uma teoria que todos nós, sem
exceção, atribuímos a uma parte ligada umbilicalmente à Teoria das Formas de
Platão, e somente a ela? Além disso, caso Sócrates viesse, no Menon, a ser
Sócrates, ele teria agido como educador. Ora, Sócrates recusa-se a ser
educador ou professor no texto “A Defesa de Sócrates”, o único texto que
Platão não colocou em forma de diálogo, talvez para dizer o seguinte: ainda
que seja o meu Sócrates, ele é o que mais se aproxima do que foi Sócrates.
Bem, a essa altura, o leitor pode perguntar: mas como que uma filósofa
experiente como Marilena Chauí caiu em tamanho equívoco? Também tentei
entender isso, desde a primeira vez que vi a primeira versão do livro, ainda pela
Editora Brasiliense. Caso estivéssemos nos Estados Unidos, bastaria uma
carta crítica e um diálogo com o autor e, então, as coisas caminhariam
tranquilamente. Mas estamos no Brasil ... E, em geral, aqui os autores ficam
muito ofendidos quando criticados – eles não tomam as críticas como sendo
uma forma de interlocução filosófica. Então, para evitar dissabores, procurei
achar a resposta por minha própria investigação. Mais recentemente, penso ter
conseguido não uma resposta, mas uma pista para uma hipótese.
Parece que Marilena Chauí foi ludibriada (como alguns outros bons autores do
passado) por aquilo que o helenista britânico Myles Burnyeat chamou de “o alto
poder da imagem” da metáfora da “arte da parteira” (midwifery) (Socratic
Midwifery, Platonic Inspiration. In: Benson, H. Essays of Philosophy of Socrates.
New York: Oxford University Press, 1992, p. 53). Richard Robinson, aliás, já
havia comentado sobre a força dessa imagem, e Myles Burnyeat lembra isso
em seu texto. Ele alude a isso exatamente para lembrar o quanto a maioria dos
scholars considera essa imagem falsa em relação ao “Sócrates histórico” e,
então, trabalha a razão da força de tal metáfora. A questão da força de tal
metáfora não é o assunto deste meu texto. E o argumento de Burnyeat para
mostrar que a midwifery nada tem a ver com o “Sócrates histórico” é fácil de
ser compreendido para quem leu entre 148e e 150a do Teeteto. Todavia, há
uma questão mais interessante que esta, ao menos para o nosso propósito
aqui, que é a presença – ainda que fraca e parcial – de Gregory Vlastos no texto
de Marilena Chauí. Ora, as características que Vlastos dá ao “Sócrates
histórico” não precisariam ser adotadas por Marilena Chauí – como de fato não
são – para que ela pudesse perceber que, ao menos algumas coisas daquelas
características ela deveria observar melhor para não tomar a midwifery como
algo próprio do que seria o método de Sócrates. É que as distinções de Vlastos
são distinções de características e de obras. Isto é, há uma periodização em
Vlastos. As características que ele atribui ao “Sócrates histórico”, e que é o
Sócrates que utiliza o elenkhos, estão em obras selecionadas dos “primeiros
diálogos” de Platão. O Teeteto, em que aparece a midwifery, não faz parte
desse conjunto de obras. Só isso, ou seja, só a periodização já deveria servir
para deixar Chauí mais atenta. Portanto, a sensação que o leitor tem é que
Marilena Chauí não prestou atenção no texto de Vlastos, apenas achou a
distinção feita por ele útil para o estudante e colocou lá. Mas caso tivesse lido
com atenção, veria que o texto de Vlastos poderia abrir seus olhos e todos os
seus estudos de Sócrates teriam sido reformulados.
Esse problema com o livro de Chauí não deve ser tomado como um ponto de
chegada da minha crítica. Deve ser um ponto de partida. Temos de aprender
com os erros, principalmente os erros daqueles que deram passos
importantes. Não seria o caso, então, de percebermos que está na hora de
ampliarmos nossa área editorial em filosofia antiga, especialmente
considerando o que chamei em outro lugar de “o boom socrático”? Não seria o
caso de supor que Chauí caiu sob o “alto poder da imagem” da metáfora da
“arte da parteira” na medida em que sua tendência de desconsiderar a
bibliografia de língua inglesa parece ter sido forte? Caso ela desse real
importância para a literatura de língua inglesa, ela leria Vlastos, que citou, com
mais atenção e, com a capacidade crítica que possui, certamente ficaria com
um pé atrás em relação ao que foi, até então, sua montagem de Sócrates.
Na verdade, o que é necessário fazer para caminharmos para um bom leito a
respeito de Sócrates é insistir com as editoras para a tradução dos livros de
Gregory Vlastos (1907-1992). Deveríamos, enfim, acompanhar a literatura atual
sobre o assunto. Somente sobre o método, já há toda uma literatura que
rediscute a maneira que Vlastos tomou o elenkhos que, por sua vez, apareceu
com esse nome – elenchus, refutação – na literatura socrática de língua inglesa
com Richard Robison, em 1953. Em 1971, em uma coletânea de Vlastos e
Amelie Rorty, The philosophy of Socrates (Notre Dame) os capítulos de
Robinson sobre o assunto foram reeditados. Em 1983 Vlastos publicou o seu
revolucionário “The Socratic elenchus”, que agora nós temos em um livro, o
Socratic studies (Cambridge, 1994), obra póstuma complementar ao livro
Socrates: ironist and moral philosopher (Cambridge, 1992), que é o melhor e
mais rico livro sobre Sócrates do século XX. Agora, com o “boom socrático”, há
uma série de livros sobre vários aspectos da obra de Sócrates, e sobre o
“método”, há coletâneas interessantíssimas. Traduzir e publicar esses livros
seria um começo – um bom começo.
© 2006 Paulo Ghiraldelli Jr.

Mariana MÃE disse...

SÓCRATES REVISITADO!


O Boom Socrático
Paulo Ghiraldelli Jr.

Sócrates (470-399) é considerado o pai da filosofia ocidental. Nunca escreveu
nada e, no entanto, talvez seja o filósofo sobre quem mais se escreveu. Alguns
até brincam, dizendo algo mais ou menos assim: ora, com um escritor da
qualidade de Platão para contar sobre sua obra, qual razão teria um filósofo de
se preocupar em escrever? Mas Sócrates nada escreveu por que o seu modo
de filosofar dependia de um tipo de diálogo e inquirição cujos objetivos
estavam ligados à interlocução viva. Seu método, em nossa época, foi
reconhecido – em especial na literatura americana e inglesa – como o
elenchus, que quer dizer “refutação”. Esse nome ficou consagrado
principalmente com os estudos de Gregory Vlastos (1907-1991).
Gregory Vlastos nasceu em Istambul e foi scholar estadunidense na maior
parte de sua vida. Graças a ele, há mais de três décadas a ampliação dos
estudos sobre a Grécia Clássica e, principalmente, sobre Sócrates, deve mais
aos Estados Unidos do que a qualquer outro país. Mesmo antes da publicação
dos seus dois livros revolucionários, Socrates, ironist and moral philosopher
(Cornell University Press, 1991) e Socratic Studies (Cambridge University
Press, 1994), vários bons scholars começaram a produzir trabalhos fantásticos
sobre o “Sócrates de Vlastos”. A fase atual já é de uma produção
historiográfica de avaliação desse debate. Em parte, é isto que contém o recém
lançado A Companion to Socrates (Blackwell, 2006). Mas no Brasil ainda não
chegamos a traduzir nem os trabalhos de Vlastos nem os dos outros que
seguiram sua agenda, talvez pela nossa desatualizada forma de fazer história
da filosofia, baseada apenas em autores europeus.
Vlastos criou uma série de características para Sócrates, que vão da
reformulação da idéia de ironia ao novo modo de ver o conceito de “conhece-te
a ti mesmo”. Não há espaço aqui para tratar de cada tema. Falo apenas de
alguns pontos incômodos.
Vlastos expôs, como ninguém havia feito antes, Sócrates como um filósofo que
não fez epistemologia, ou seja, que não discutiu o seu método – o elenchus –,
mas apenas o utilizou. Grosso modo, a idéia de Sócrates era simples. Ele
perguntava ao seu interlocutor algo como “o que é a coragem”. Seu
interlocutor respondia citando casos de homens corajosos. Sócrates mostrava
que aquilo era uma situação particular, e não servia como uma definição – a
explicitação de um conceito – de coragem. O interlocutor ficava em um
impasse e, então, esperava a definição que deveria vir de Sócrates. Mas este
também não dava a definição, como se não pudesse fazê-lo ou não soubesse
mesmo dar um definição abrangente e segura.
Vlastos colocou por terra, por exemplo, aquela velha historieta de que o
método de Sócrates seria algo como que a “maiêutica”, a arte de parir idéias.
Por essa velha e confusa interpretação, Sócrates agia no campo intelectual
como sua mãe agiu na vida, uma vez que ela foi, de fato, parteira. Vlastos
argumentou de modo suficiente que tal procedimento jamais foi utilizado pelo
Sócrates histórico, e sim por um Sócrates que já era única e exclusivamente
um personagem dos diálogos de Platão. Este último era, de fato, Platão, não
mais Sócrates. Por meio de técnicas da filosofia analítica, Vlastos mostrou que
o escravo ignorante que, uma vez inquirido por Sócrates, expõe um teorema
matemático, faz algo que tem a ver com o que Platão defendeu como um
método para o saber – a teoria da rememoração das idéias. O erro dos manuais
brasileiros ou das histórias da filosofia no Brasil é o de acreditar que se trata,
neste caso, do Sócrates histórico e que de fato existiu algo como a chamada
“maiêutica”. Este nunca foi o método de Sócrates e nem mesmo uma parte do
método. Ora, se os manuais brasileiros querem afirmar o que afirmam, então
ao menos deveriam refutar Vlastos.
Os opositores ou simpatizantes de Vlastos, a maioria deles seus ex-discípulos,
têm publicado muito. Mas nenhum de seus livros leva a imaginarmos que os
nossos livros brasileiros vão ser recuperados. Nada disso. Eles seguem por
outro caminho e deixam o material que temos cada dia mais obsoleto. No caso
do elenchus, Gary Alan Scott organizou um volume com os principais scholars
dedicados ao tema no livro Does Socrates have a method? (Pennsylvania State
University Press, 2002). Mas isso, sem dúvida, é apenas uma ponta do iceberg.
A discussão mais quente é a sobre as relações entre Sócrates e o Oráculo de
Delfos e, também, sobre as “vozes da divindade” que Sócrates dizia escutar
desde criança. Sobre tal assunto, Nicholas D. Smith e Paul B. Woodruff
organizaram a coletânea Reason and religion in socratic philosophy (Oxford
University Press, 2000). Mas os dois livros em polêmica direta com a obra de
Vlastos são os de Thomas C. Brickhouse e Nicholas Smith, Plato’s Socrates
(Oxford University Press, 1994), e o de Mark MacPherran, The religion of
Socrates (Pennsylvania State University, 1999). Vlastos sempre defendeu a
idéia de que os sinais divinos que Sócrates recebia, não o influenciava nas suas
decisões – a não ser na primeira decisão, a de tomar o rumo de examinar os
habitantes de Atenas para encontrar um que fosse mais sábio que ele –, que
eram tomadas a partir da razão. Ou seja, para Vlastos, nunca houve em
Sócrates contradição entre dever cívico-religioso e filosofia racional, porque
tais coisas não se opunham. Os sinais divinos que Sócrates dizia receber, ele
os assumia por conta e risco, e quando decidia algo, tais sinais funcionavam
como “palpites”, e na verdade se não tivessem existido, ele teria decidido no
mesmo sentido que decidiu, uma vez que tinha bases racionais para tal. Os
outros autores não pensam assim, e ampliam a ligação de Sócrates com
situações religiosas e, não raro, místicas.
Para além desse debate, há ainda o problema da ética (e da política) – que
compõe o que o filósofo chamava de sabedoria. O dever cívico de Sócrates deu
margem para livros brilhantes em polêmica com Vlastos, direta ou
indiretamente, como o caso do volume de Hugh H. Benson, Socratic Wisdom
(Oxford University Press, 2000) e o de Richard Kraut, Socrates and the State
(Princeton University Press, 1984).
Não posso deixar de registrar, ainda, o fantástico Socrates organizado por
William Prior (Routeledge, 1996) em quatro volumes. Essa bela obra reúne os
debates em torno de Sócrates – também mantendo Vlastos em destaque – em
quatro volumes. Prior não só coloca os debates em forma cronológica como
fornece uma introdução saborosa e esclarecedora para cada um dos temas
tratados. O primeiro volume é sobre “O problema socrático e o problema da
ignorância de Sócrates”; o segundo volume sobre o “Julgamento de Sócrates”;
o terceiro sobre “O método”; e, enfim, o quarto volume sobre “Felicidade e
virtude”.
Essa literatura que alia, como a do genial Vlastos, rigor técnico com saborosa
escrita, não está nas mãos do público brasileiro, em português. Mais uma vez,
o Brasil fica aquém de um assunto palpitante e decisivo. Um assunto que não
vale apenas para trabalhos específicos de filosofia. Não mesmo! Sócrates é
importante para além disso, pois o destino que dermos às interpretações de
Sócrates, em grande parte, determinará o tipo de espelho que nós, ocidentais,
construiremos para nos olharmos e nos darmos identidades. Conforme a
identidade que atribuirmos a nós mesmos, nos apresentaremos de uma
determinada maneira perante os orientais. Eis aí o que é decisivo no mundo
atual.
© 2006 Paulo Ghiraldelli Jr.

Mariana MÃE disse...

GRANDE RECEPÇÃO PARA O NOSSO TRABALHO!

Estado de S.Paulo Jornal da Tarde Portal Estadao
Domingo, 1 junho de 2008
CADERNO 2


Elo com Atenas para entender o presente

São dois legados gregos, política e filosofia, sonhos que parecem impossíveis na atual ordem mundial

Renato Janine Ribeiro

Atenas, no tempo de seu esplendor, o chamado “século de Péricles”, contava com algumas dezenas de milhares de habitantes. E com seus domínios na Ática e nas ilhas, poderia chegar a seis dígitos. O mundo inteiro teria 100 milhões de habitantes na época e, 400 anos depois, no começo de nossa era, a Grécia toda teria 2 milhões.
A democracia ateniense, a filosofia grega eram uma gota num oceano de regimes despóticos, monárquicos, freqüentemente identificando o rei a um deus, em que a religião e mesmo a superstição barravam o advento do pensamento livre, que é a filosofia.
Então, como é que valorizamos essa exceção histórica tão aguda?
Por que a experiência democrática ateniense - envolvendo como cidadãos bem menos de 0,01% da população terrestre - ainda causa impacto tão grande?
Moses Finley conta: na Atenas do apogeu, os cidadãos se reuniam em média 40 vezes por ano na ágora, ou seja, uma praça que não era apenas um “logradouro público”, como hoje dizemos, mas sim o centro de decisões. Cada nove dias, em média, uma assembléia, com freqüência habitual de mil homens. Em situações excepcionais, passava de dez mil. Essa experiência nos marca até hoje.
Imaginem dar um Google Earth na ágora ateniense. Será um espaço físico mínimo, ao qual ia - se tanto - uma minimultidão.
Esse lugar minguado, com menos gente do que o edifício Copan, é a grande referência da filosofia e da democracia modernas.
Por quê?
Poderíamos certamente estudar hoje a filosofia e a religião hindus, o pensamento de Confúcio. Poderíamos também praticar uma política de franco despotismo, como parece ter sido a dos Reis dos Reis persas, que fracassaram na luta contra as cidades gregas e depois foram esmagados por Alexandre. Poderíamos igual, mas diversamente, seguir a idéia chinesa do rei-jardineiro em vez do monarca pastor dos indo-europeus: isto é, em vez de mutilar, matar e comer, gentilmente orientar os galhos para o crescimento. Poderíamos. Mas, na verdade, nossa cultura não segue nem o poder forte indo-europeu, embora o tenha feito por alguns milênios, nem o poder brando do jardineiro chinês. Ela, pretendendo ser democrática, restabelece elos com Atenas.Mas, mesmo nos milênios não democráticos que separam o século 4º antes de Cristo da modernidade, Atenas continuou sendo uma referência - filosófica, ainda que não política - talvez apenas com uma pausa medieval.
Por quê? Parece que Atenas desempenha um papel ambíguo na nossa cultura. É o papel ambíguo daquilo que sabemos impossível, mas que mesmo assim tem um valor muito forte.
Atenas constitui um ideal, talvez o mais elevado que podemos conceber. Esse ideal é duplo: filosófico e político.
Uns celebram a ágora e as decisões tomadas por um coletivo de iguais. Outros destacam os filósofos e sua reflexão, conduzida em público, ora por um mestre que nega ser mestre, que afirma somente saber uma coisa, que “nada sei” (Sócrates), ora por um mestre que pensa caminhando com seus discípulos (Aristóteles) - duas formas de filosofar que nada têm em comum com o que hoje fazemos.
Algum professor entra em sala de aula e diz aos alunos: “Estou aqui para ensinar-lhes que não sei nada?” Ou algum professor sai para caminhar pelos lugares públicos e ali dialoga com os passantes, ou com os próprios alunos? Muito poucos.
Um amigo meu dizia, brincando, que a decadência da filosofia tinha a ver com o fim da forma do diálogo. E sugeria que, ao fim de um jantar (de um “banquete”, para lembrar o diálogo de Platão sobre o amor), o garçom, devidamente formado, se sentasse à mesa, sorteasse um tema e dissesse: “Vamos agora discutir.” Livremente. Talvez, a conta fosse mais alta ou mais baixa conforme a discussão se mostrasse pior ou melhor... O autor dessa idéia é o historiador Jorge Coli, a cujo amigo Luiz Dantas, que acaba de falecer, dedico o presente artigo.
Resumindo, temos dois legados gregos. Um deles sabemos que nunca emularemos: a democracia ateniense, na praça. Era uma democracia sem tecnocratas, direta.
Hoje, é impossível reunir todo o povo na praça - e, pior que isso, o manejo da coisa pública exige uma expertise que reduz os não experts a cidadãos de segunda classe.
O problema não é juntar gente. O problema é o Banco Central.
Unir milhares na praça é difícil, mas é sobretudo inútil: o que decidirem não será cumprido.
Atenas sobrevive, neste plano, como sonho. Sabemos que não a igualaremos, mas a admiramos.
O outro legado é a filosofia. Também foi tomada pelos experts.
A famosa cena em que Sócrates faz um escravo pensar - melhor dizendo, em que Sócrates dá ao escravo a ocasião de pensar por si só, sem lhe ensinar nada, só facilitando sua reflexão - não encontra paralelo em nossa academia.
Mas será que aqui é a mesma impossibilidade que mencionei acima? Sem dúvida, ninguém extrai de si mesmo enormes saberes. É preciso estudar e aprender.
Mas não venderemos nossa pele muito barato, quando nem sequer tentamos o projeto Jorge Coli, que em suma diz que “livre pensar é só pensar”? Atenas nos fascina. Mas talvez possamos fazer com que parte maior do seu sonho se transforme em ato.
No próximo jantar a que forem, por que não discutem o amor, ou Deus, ou a ambição, ou em suma alguma questão que achem dizer respeito ao valor das coisas, ao que faz a vida merecer (ou não!) ser vivida? Será uma pequeno brinde - libação, diriam os gregos - a Atenas, ao amor ao saber (que é o que significa filosofia), ao amor e ao saber.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo

Patricia vieira disse...

Mariana, parabéns pra vc, pela sua criatividade e capacidade de superar os limites.
Bjs,
Patricia Vieira